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Opinião

Conexão SP: Não quero mais ser tão bom quanto Gregor Samsa

Por: SIDNEY NICÉAS
Ricardo Mituti traz novo texto delicioso, baseado no Laboratório de Leitura, trazendo um dos maiores personagens da literatura para refletir sobre quem somos

Foto: Macroscopic Solutions/Flickr Commons

06/11/2020
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*Por Ricardo Mituti

                Sou um homem bom. Minha mãe sempre disse isso. Para mim e para todo mundo que quisesse ouvir. Aliás, ela, invariavelmente, diz que sou o melhor homem que minha mulher poderia ter escolhido. Que igual a mim, ela – minha mãe, claro – não conhecia outro.

                Eu me convenci disso. E fui parar na terapia. No fundo, penso que também deveria ter procurado um bom ortopedista especialista em coluna. Porque, de tão bom que acreditei ser, passei a carregar nos ombros o peso do mundo.

                Ok, há um certo exagero aqui, admito. Mas não no fato de ser um homem bom; apenas no que diz respeito ao peso do mundo sobre os meus ombros. Sim, porque não é bem do mundo o peso que levo; carrego, na verdade, o fardo pertencente a algumas pessoas que amo ou, pelo menos, por quem tenho grande estima – ou, ainda, um inexplicável senso de zelo. E por que faço isso? Oras, porque sou um homem bom!

                Por sorte, descobri que houve na literatura um homem muito melhor do que eu. Minha mãe pode até não acreditar, mas que houve, houve. E este homem foi Gregor Samsa.

                Bom, Gregor não foi um homem como eu, com cabeça, tronco e membros, por toda sua existência. Parece até que foi, mas apenas enquanto caixeiro viajante idealizado pelo escritor tcheco Franz Kafka. Entretanto, quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

                Até hoje não sei bem se o bondoso caixeiro virou barata, besouro ou algum outro bicho de seis patas, antenas e asas. Sinceramente, a mim pouco importa. O detalhe sórdido da sua biografia é que Gregor se desumanizou a tal ponto que virou um artrópode. Simples assim – graças à genialidade e à criatividade do visceral escritor tcheco.

                Curioso é que, em alguns dicionários, a palavra “inseto” também possui o sentido figurado (e pejorativo) de “pessoa insignificante; desprezível”. E não menos curioso é fazer uma consulta rápida sobre o enredo de “A Metamorfose” na Wikipédia e ler as seguintes linhas iniciais: “Nesta obra, Kafka descreve um caixeiro viajante de nome Gregor Samsa, que abandona as suas vontades e desejos para sustentar a família e pagar a dívida dos pais”.

                Que paradoxo mais cruel! Como pode alguém ser generoso e insignificante ao mesmo tempo? Não, não tenho uma resposta para esta pergunta. Mas ao participar de um ciclo recente de Laboratório de Leitura sobre a referida narrativa, graças às perspectivas compartilhadas pelos(as) colegas do grupo no qual eu estava inserido, compreendi algo que passara completamente batido por mim quando li “A Metamorfose” pela primeira vez, em 2017: nós podemos nos desumanizar quando deixamos de viver a nossa própria vida para viver a vida do outro. Ou, ainda, quando abdicamos de nossos anseios apenas para satisfazer os anseios do outro. Em outras palavras: até o altruísmo pede justa medida (obrigado, Homero; obrigado, Ulisses; obrigado Dante Gallian. Lição dada é lição aprendida!).

                Ao me deparar com essa análise, entendi, também, o porquê eu não havia achado “A Metamorfose” nada demais anos atrás. Inconscientemente, eu havia me identificado tanto com Gregor Samsa – pelo menos no que diz respeito ao relegar minhas próprias vontades para privilegiar a dos outros – que, de alguma forma, eu o repeli. Penso até que tenha ficado com algum nojo do pobre caixeiro viajante, mesmo antes dele ter se metamorfoseado em inseto.

                Por ser apenas paciente, e não terapeuta, é óbvio que não vou desperdiçar palavras para fazer uma autoavaliação psicológica desse repúdio inicial a Samsa. Até porque, também, tenho de admitir que agora eu me compadeço dele. E me compadeço tanto que me arrependi até as tampas da senhora chinelada que dei na noite passada numa barata voadora que invadiu minha cozinha. Não porque cogitei ser ela Gregor. Mas porque, quem sabe, poderia ser eu, em minha cama, ao acordar de sonhos intranquilos na manhã seguinte.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

 

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