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Opinião

Conexão SP: Ricardo Mituti e o verão de Jacobina

Por: SIDNEY NICÉAS
Machado de Assis, um tanto assustado, deve estar também se deliciando com a nova e espirituosa crônica de Ricardo Mituti

Foto: Arte Tesão Literário

14/01/2021
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*Por Ricardo Mituti

Feliz Ano Novo, prezado(a) leitor(a)!

Se o desditoso coronavírus permitir, é chegada a hora de se esbaldar na praia, torrar ao sol, tomar banho de água salgada, bater uma bolinha na areia, fazer aquela caminhada relaxante à beira-mar, correr de tênis e meia ouvindo Spotify, comer camarão, peixe frito e tomar cerveja sob o guarda-sol e, claro, ler um bom livro à sombra. É verão, graças a Deus – ou ao movimento de translação da Terra, caso você seja adepto(a) do ateísmo.

O verão, também, é o período em que o Instagram bomba de gente bombada, bonita, feliz e tatuada com “Carp Diem” ou “Gratidão” em alguma parte exibível do corpo – corpo este, aliás, via de regra bronzeado e muito bem-cuidado.

Evidentemente, o parágrafo acima é um livre exercício de empirismo deste escriba que ama verão, odeia Instagram – embora o tenha por motivos profissionais – e tem o corpo honesto de um homem de quase 42 anos que se alimenta bem, caminha e pedala com moderação, mas não frequenta academia e passa 12 horas do dia sentado à frente do computador. Não, não estou acima do peso, antes que você tenha chegado a essa precipitada e equivocada conclusão. Mas também estou bem, bem longe de ter um porte atlético que mereça ser mostrado rede afora.

Todo esse devaneio me fez lembrar de um curioso episódio de “sincerismo” do qual fui uma espécie de antagonista. Uma colega de escola, que eu não via havia muitos anos, reencontrou-me num evento onde eu expunha e autografava meus livros autorais. Depois dos devidos e respeitosos cumprimentos, ela mirou o grande banner com minha foto sorridente, olhou para mim e disparou, num misto de exclamação e interrogação: “nossa, o tempo te fez bem, hein!?” Rimos. Eu mais sem graça do que ela, claro.

Por sermos ambos casados, é óbvio que a colega só quis ser gentil e dizer que eu estava bem, na meia-idade e grisalho. Mas, óbvio também, o elogio do presente indubitavelmente acompanhava uma honesta crítica construtiva, digamos, ao passado adolescente, quando, admito, pelo menos em termos estéticos – digamos de novo – eu deixava a desejar – digamos pela terceira vez – para os exigentes padrões juvenis femininos do colégio onde estudáramos.

Tempos depois desse episódio um tanto insólito, mas inegavelmente engraçado, conheci Jacobina, protagonista do irretocável conto “O Espelho”, do genial Machado de Assis.

O casmurro Jacobina tem uma tese com a qual compactuo: cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro – ou, em outras palavras, uma alma interior e uma alma exterior.

Contava o intrigante homem a um grupo de amigos – todos de meia-idade, feito eu – que um jovem rapaz, de 25 anos, fora nomeado alferes da Guarda Nacional. Após a nomeação, de tanto que passou a ser bajulado, o coitado só conseguia se ver no espelho quando devidamente uniformizado; se não estivesse trajado como alferes, a única coisa capaz de visualizar era uma figura vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra.

Jacobina explicava aos seus interlocutores, perplexos, que o alferes eliminou o homem, e que ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. Reproduzindo o pobre e perturbado alferes, o protagonista da brilhante narrativa machadiana complementava dizendo que durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ao alferes restou apenas uma parte mínima de humanidade.

Ora, ora! Mesmo tendo sido apresentada há quase 140 anos, a teoria jacobinesca nunca foi tão atual. Ainda mais no verão. E com novas notificações do Instagram apitando a cada três ou quatro segundos no celular.

Da minha parte, embora a colega tenha me dito que o tempo me fez bem – e eu tenha acreditado –, não possuo interesse algum, casmurro que também sou, em ostentar minha alma exterior nas redes sociais, seja no verão ou em qualquer outra estação do ano.

Ao contrário de quem gosta de tirar foto em frente ao espelho – e consegue ver o próprio reflexo –, fazendo biquinho com os lábios ou Paz e Amor com os dedos inclinados à esquerda (juro, você têm o meu respeito!), o que eu sempre quis, mesmo, desde os tempos de adolescente esteticamente fora dos padrões, era poder mostrar a minha alma interior. Descaradamente e sem pudor. Só que esta, claro, quase nunca alguém se interessa muito em ver.

E hoje, com o verão ardendo e a vida regida por posts, likes e compartilhamentos de milhões de almas exteriores felizes e queimadas de sol, a mim resta curtir a praia sem estardalhaço social na web ou, por pura diversão, posicionar-me em frente a um espelho qualquer não para fotografar-me, mas para atentar bem para o reflexo que será exibido. Oxalá eu não consiga enxergar-me somente se estiver sorrindo largo e pressionando contra o peito os livros que já publiquei.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

 

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