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Literatura

Eu, o outro e a Verdade, segundo Dostoiévski

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor paulistano Ricardo Mituti e o russo Fiódor Dostoiévski juntos numa crônica? É a coluna Lego Ergo Sum para você compreender o poder das grandes obras literárias.

Foto: Kourosh Qaffari/Unsplash/arte do Tesão Literário

02/10/2020
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*por Ricardo Mituti

                Costumo dizer que na minha Santíssima Trindade literária, Fiódor Dostoiévski é o Pai. Gosto tanto dele que até meu filho de 8 anos já sabe pronunciar o sobrenome russo com invejável perfeição. Nossa calopsita só não foi batizada com o singelo epíteto de Dostô porque, no fim das contas, fui voto vencido no pleito familiar que elegeu o nome da ave.

                Curioso é que não faz tanto tempo assim que li meu primeiro Dostoiévski. Meu estimado amigo, coach literário, consultor editorial e editor Paulo Tedesco, ao seu melhor estilo, decretou:

                - Está na hora de lê-lo.

                - Tem certeza?

                - Queres ou não ser um escritor?

                - Claro que quero!

                - Então leia.

                Comecei por “O Jogador”. Era abril de 2017. E numa época em que ninguém sequer pensava em pandemia, eu lia a história do jovem Aleksei Ivanovitch em pé, no metrô, no trajeto diário casa-trabalho-casa.

                Num fim de tarde, enlatado num vagão superlotado, eu finalmente compreendi a mística em torno deste grande autor. Quer dizer, compreender não é o verbo mais adequado para explicar o que aconteceu; certo mesmo é dizer que eu senti: tive uma crise de ansiedade. E a culpada foi vovó Antonina Vassilievna, personagem do romance dostoievskiano.

                A senhorinha de 75 anos, um tanto dura e pouco afável com seus interlocutores, protagonizou um perde-ganha na roleta de um cassino que foi o suficiente para me deixar com a respiração acelerada e a testa em gotas.

                Por sorte, a composição já se aproximava do meu destino. Tudo o que eu queria era saltar do trem e deixar meu rosto ser tocado pelo ar que me faltava no vagão. Esta foi a primeira vez que um livro me causou esse tipo de reação.

                Entendi que aquele tal Fiódor, até então temido e inatingível, tinha o estranho poder de revirar minhas vísceras com palavras. Lê-lo era ser golpeado com uma voadora no peito.

                E sabe o que é pior? Eu gostei. Muito. Ser golpeado pelo russo me proporcionou um prazer que, pensei, só Sade explicaria. Mas não. O próprio Dostoiévski me ofereceu de bandeja uma resposta n’“O Jogador”: Talvez, depois de ter passado por um número tão grande de sensações, a alma não possa deleitar-se, exigindo novas sensações, sempre mais violentas, até o esgotamento total.

                É isso. Esse cara sabe das coisas. Conhece como poucos o âmago da intrincada alma humana. Sua arte é uma inesgotável fonte despertadora de afetos, sentimentos e reações.

                Intenso que sou, encontrei meu norte em Dostô. Tanto naquele com quem mais me identifico, o filosófico e psicológico de obras como “O Sonho de um Homem Ridículo” e “Os Demônios”, mas também no onírico de “Noites Brancas”.

                Para além de sua própria obra, o velho Fiódor ainda me fez a gentileza de escancarar as portas da Rússia, por cuja literatura me apaixonei desmedidamente – ao melhor estilo russo, registre-se.

                Foi rápido e fácil me encantar com a singularidade de Liev Tolstói, o realismo de Anton Tchekhov, a simplicidade de Nikolai Leskov e até mesmo com as narrativas fantásticas de outro Nikolai, o Gógol – uma verdadeira façanha, neste último caso, em se tratando de alguém tão hermético quanto eu.

                Ainda não cheguei a Aleksandr Púchkin – por muitos considerado uma espécie de pai de todos -, Ivan Turguêniev e Mikhail Bulgákov, para citar apenas três dos russos que esperam para ser retirados da estante. Mas foi Fiódor quem me desnudou a Verdade (com “V” maiúsculo) sobre a minha existência e a do outro, tão imprescindível para que eu me torne cada dia mais humano. Primeiro com vovó Antonina Vassilievna, que, mesmo às avessas, recordou-me que eu estava vivo. Depois, com o Homem Ridículo, que em sua quase mortal busca pela Verdade - talvez a mesma que me foi revelada pelo autor - cravou em minh’alma um inquietante pensamento: (...) se você uma vez conhece a verdade e a enxerga, então sabe que ela é a verdade e que não há outra e nem pode haver, esteja você dormindo ou acordado.

                - Pô, Dostô, de novo? Já não bastava a velhinha ter me atormentado as emoções e agora você me aparece com esse filósofo do subsolo, tornando a coisa ainda mais tensa?

                - (...) a verdade só se alcança pelo tormento – arremata (e nocauteia-me) o Homem Ridículo.

                Amém, Fiódor.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

 

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