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Opinião

Meias verdades são castelos de cartas

Por: SIDNEY NICÉAS
Inspirado no livro “Homens interessantes e Outras histórias”, Ricardo Mituti nos traz uma reflexão sobre “verdades”.

Foto: Sigmund/unsplash

16/06/2022
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*Por Ricardo Mituti

Um escritor russo menos conhecido no Brasil - mas não por isso menos genial – do qual gosto muito é Nikolai Leskov. 

Leskov é autor de um conto intitulado A Sentinela, presente no livro “Homens Interessantes e Outras Histórias”, que mexe muito comigo sempre que volto a ele.

A Sentinela narra a história de um jovem soldado que, a despeito de guardar o Palácio de Inverno do grande príncipe russo, decide salvar um homem que se afogava à sua frente, no degelado Nievá.

Seria esta uma façanha digna de condecoração não fosse um detalhe para lá de relevante: uma sentinela não deve, sob hipótese alguma, largar o seu posto. Se o faz, pode até colocar o próprio pescoço na corda – ou, para ser mais preciso, a testa na mira de um fuzil.

Apesar dos riscos, a sentinela de Leskov priorizou o outro, um desconhecido, em vez de ele próprio. E, não contente, admitiu a culpa sem nada esconder de seus superiores.

Se o enredo do conto fosse apenas este eu já teria motivos suficientes para algumas boas reflexões – e, em se tratando de mim, uma ou outra crise. Agora, imagine você, querido leitor, querida leitora, que me acompanha há algum tempo neste Tesão Literário – e que, suponho, conhece um pouco da minha aflorada sensibilidade para determinadas questões humanas –, como não me senti quando a pobre sentinela acabou punida?

Prometo que o spoiler não vai para muito além daqui – e, juro, isso foi o chamado mal necessário para contextualizar o tema deste artigo. Mas o fato é que houve uma articulação para que ninguém acabasse punido pelo ocorrido, ainda que tal articulação não tenha beneficiado o único verdadeiro herói da narrativa.

No Brasil, essa articulação talvez pudesse ser chamada de “jeitinho” ou lobby – sobretudo se dissesse respeito a questões políticas. No conto, o tradutor optou pela brilhante  – e irônica, a meu ver – expressão admirável tino multilateral de uma determinada personagem, de elevada patente, que “sabia fazer um elefante duma mosca e, com a mesma facilidade, sabia fazer uma mosca dum elefante”.

Em resumo, o que houve foi que uma mentira contada por outra personagem colaborou para que a articulação beneficiasse todos os envolvidos, diretos e indiretos, no episódio do afogamento que não aconteceu – exceto, não custa lembrar, a própria sentinela, que o evitou.

Livre, porém incomodado com o destino do soldado herói, um dos superiores da sentinela conta a um prelado, passado algum tempo, sobre o que de fato ocorreu naquela fatídica noite do resgate. E eis que o prelado, homem cauteloso e não indiferente aos “acontecimentos mundanos”, ao tomar ciência da verdade, desfiando as contas do rosário por entre os dedos, várias vezes, dispara dois mísseis em direção ao seu interlocutor – os quais, admito, ainda explodem minha consciência, mesmo já tendo lido, relido e discutido essa narrativa incontáveis vezes em Laboratórios de Leitura: 

– É nosso dever distinguir o que é mentira e o que é meia verdade.

Ainda sou capaz de mirar meus miolos subindo aos ares quando prossigo e leio que, novamente as contas do rosário, novamente silêncio, e, por fim, a voz em manso fluxo:

– Uma meia verdade não é mentira. Mas isso é o de menos.

A verdade (com o perdão da palavra, mas não encontro outra melhor) é que não, eu não compactuo com o religioso. Simplesmente não consigo. É mais forte do que eu. Uma meia verdade não é uma verdade completa. Não sendo uma verdade completa, é como um jardim de dentes-de-leão em meio a um vendaval. E isso é o de menos? Só se for para ele, prelado, que não era planta e vivia num palácio, protegido das intempéries. 

Reconheço ser um sincericida inveterado – embora, evidentemente, não seja inocente, pueril ou mesmo queira com isso dizer que jamais menti na vida, importante que se registre, antes que você resolva demonizar o prelado (como eu sempre tendo a fazer) e solicitar ao Vaticano a minha canonização. Mas é justamente por ser assim, meio sentinela, que eu talvez prefira a solidez dos tijolos da verdade de uma vida alicerçada em valores reais e humanísticos, ainda que sob o risco da corda no pescoço ou da mira do fuzil na minha testa, a passar o resto dos meus dias habitando um suntuoso palácio ou castelo de cartas.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

 

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