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Opinião

Nastácia Filíppovna e o direito à infelicidade

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor e jornalista Ricardo Mituti traz O Idiota, de Dostoiévski, para falar sobre o direito de ser infeliz

Foto: Andre Hunter/Unsplash

10/03/2021
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*Por Ricardo Mituti

Dia desses eu li alguma manchete que falava sobre como a chamada positividade tóxica poderia estar nos prejudicando, sobretudo nesses tempos de pandemia.

Curioso pensar que até a positividade também nos pode ser tóxica, não? Não. Não para mim. Tenho de admitir que me irrito com aquelas pessoas que acham lindo um céu bem preto, carregado de gordas e relampejantes nuvens. Penso que até para ser feliz, bom ou grato, é preciso encontrar a justa medida.

E antes que você resolva me julgar, cancelar-me (odeio essa moda!) ou atirar-me pedras, sugiro, convém controlar-se. Apenas prossiga com a leitura.

Mesmo sendo assim, um rabugento inveterado – Ariano talvez dissesse que sou o tal “pessimista chato” –, devo confessar que essa tal positividade tóxica, por incrível que pareça, deve ter me contaminado nos últimos tempos.

No primeiro mês do ano, li o magistral e denso “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski, e conheci Nastácia Filíppovna. A despeito da inocência que lhe fora roubada ainda nova, as atitudes da personagem na idade adulta incomodaram-me. Ora, como uma pessoa pode rejeitar ser resgatada das trevas e optar por viver infeliz o resto de seus dias? Alguém lhe estende a mão e você escolhe submergir? Como dizer não a um homem puro e bom, disposto a sacrificar a si próprio para lhe ajudar? Impossível! Pode um ser humano querer não ser feliz? É possível não ser feliz mesmo sendo amada, pretendida e auxiliada? Essa mulher só pode ser doida, e nem mesmo seu triste passado poderia justificar esse tipo de comportamento.

Sim, prezado(a) leitor(a). Caí na armadilha do julgamento (entendeu por que recomendei cautela antes de fazer o mesmo comigo?). E logo no primeiro encontro do Laboratório de Leitura da referida obra dostoievskiana, do qual participo enquanto escrevo essas linhas, exteriorizei para o grupo minhas impressões bastante duras sobre Nastácia.

Não que não devesse tê-lo feito; pelo contrário. O Laboratório, e em especial o primeiro encontro, quando compartilhamos nossas Histórias de Leitura, é o espaço perfeito para demonstrarmos os afetos que nos foram despertados na leitura individual e desarmada de uma narrativa literária.

A questão é que fui deveras assertivo nas minhas supostas convicções. Malhei Nastácia mais do que Judas, e desconsiderei que todo mundo é livre para viver como melhor lhe aprouver. Inclusive, se for o caso, sendo infeliz.

Só notei que havia sido eu, e não senhorita Filíppovna, quem havia ultrapassado a justa medida do bom senso quando, educadamente, um colega do grupo comentou que não deveríamos julgar o comportamento da bela moça russa, por mais paradoxal que ele nos soasse. E isso não apenas porque éramos tão imperfeitos e falíveis quanto a pobre, mas, sobretudo, porque ela talvez carregasse sentimentos que justificassem aquelas atitudes, que a mim pareciam apenas caprichosas ou tresloucadas.

Não me convenci. Cresci assim, sou mesmo assim e vou ser sempre assim? Síndrome de Gabriela para mim é demais! Nastácia maluca. E ponto.

Uma outra participante reiterou que Nastácia fora violada ainda criança. E que, a exemplo de algumas mulheres vítimas de abuso, maus tratos ou qualquer outro tipo de violência praticada por homens, talvez ela própria se sentisse culpada – por mais disparatado que isso pudesse me parecer –, e que, por essa razão, achasse que não merecia ser feliz. Ou ainda, vá saber, que no fundo Nastácia até fosse feliz à sua maneira. 

Aí acusei o golpe. Fui um boçal. Limitado.

Para minha sorte, a literatura, no contexto do Laboratório de Leitura, é capaz de promover a ampliação da esfera da presença do meu ser. E isso só acontece em virtude dessa interlocução. Afinal, para me humanizar eu preciso do outro, irremediavelmente. E que bom que é assim. E que bom que existe o outro.

No encontro seguinte ao do meu cruel julgamento, fiz um mea-culpa cheio de vergonha e com toda minha mais sincera humildade. Disse ao grupo que, talvez, tivesse me deixado contaminar pela tal da positividade tóxica. Ora, ser feliz era um dever e uma bênção. E não importa que o mundo estivesse acabando ou que eu houvesse sido estuprada quando criança. É muito mimimi, Nastácia – já diriam uns. Vai ficar chorando até quando?

Juro, disse aos meus colegas, que não havia me transformado no “otimista tolo” do Ariano; só não entendia, até o fatídico episódio, que o direito à infelicidade também nos é garantido pelo livre arbítrio.

No fundo, reconheço, essa ideia ainda me perturba. Mas agora menos. Até porque, dias depois dessa reconciliação com Nastácia Filíppovna, enquanto lia “O Filho de Mil Homens”, de Valter Hugo Mãe, deparei-me com uma frase que, embora breve, acertou-me a alma com a impetuosidade de um raio de uma gorda nuvem do lindo céu bem preto celebrado por alguns positivistas tóxicos: A felicidade, pensava o Antonino, passava por muita fantasia.

Agora sim, tudo estava claro. E hoje eu sei que estou mesmo bem longe de ser ao menos o “realista esperançoso” de Suassuna. Só não nego que, não fossem Nastácia, meus colegas de Laboratório de Leitura e depois o Antonino, talvez agora eu estivesse mirando o céu enegrecido e barulhento, com um largo sorriso estampado no rosto, torcendo pela chegada da tempestade.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

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