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Opinião

O Inferno do Igual: não há eu sem tu

Por: SIDNEY NICÉAS
Ricardo Mituti lê magistralmente o momento infernal da humanidade - e a falta de alteridade, o esgotamento a partir de si.

Foto: Chris Barbalis/unsplash

17/03/2022
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*Por Ricardo Mituti

No começo do mês, obtive o título de Mestre em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pesquisei a contribuição do Laboratório de Leitura como facilitador do processo de humanização de mães de pessoas com deficiência.

Um dos recortes temáticos que fiz foi o da ressignificação da deficiência pela perspectiva da alteridade – ou seja, de mostrar como essas mulheres percebem o outro enquanto mães de pessoas com deficiência, e como o outro percebe tanto elas quanto seus filhos e filhas com deficiência – seja ou não este outro uma pessoa com deficiência.

A etimologia da palavra alteridade remete ao latim alteritas. Alter significa “outro”; itas, “ser”. Pode-se entender a alteridade, então, como “ser o outro”.

O conceito difere um pouco da habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa, significado da palavra empatia, mais conhecida e compreensível. A alteridade, por definição, é a qualidade de ser outro, de ser distinto, “diferente” (e, aqui, recorro às aspas porque o diferente não deve ser entendido de maneira pejorativa ou excludente, mas como alguém que não sou eu, pelo fato de não existirem no mundo duas pessoas totalmente idênticas em tudo).

Ok, Ricardo, parabéns pelo seu Mestrado e obrigado(a) pela explicação. Mas aonde você quer chegar com isso? – você pode estar me perguntando. E eu respondo: no conturbado e tenebroso momento vivido pela humanidade.

Sequer saímos de uma pandemia e cá estamos nós, temerosos de uma terceira grande guerra. Sim, senhoras e senhores! Se um maldito vírus não foi capaz de dizimar tanta gente quanto previram alguns cavaleiros do apocalipse pós-modernos, que tal uma bomba atômica para executar decentemente o serviço?

Mas não, minhas amigas e meus amigos. Não pretendo usar deste espaço para discorrer sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Ainda que me entristeça pensar que (mais) este acontecimento nefasto nos garantirá lugar nas edições futuras dos livros de História, o que me traz até aqui é considerar essa guerra uma consequência daquilo que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chama de agonia do eros. E que fique claro, desde já, que a relação entre guerra e agonia do eros não é obra desse respeitável pensador asiático; sou em quem vê a coisa por esse prisma.

Chul Han, no ensaio “Agonia do Eros”, escreve que O eros se aplica, em sentido enfático, ao outro, que não pode ser abarcado pelo regime do eu. No inferno do igual, que iguala cada vez mais a sociedade atual, não mais nos encontramos, portanto, com a experiência erótica, que pressupõe a transcendência, a radical singularidade do outro. (...) O desaparecimento do outro é um sinal da sociedade que vai se tornando cada vez mais narcisista; a sociedade, esgotada a partir de si, não consegue se libertar para o outro. É uma sociedade sem eros.

Segundo o filósofo, o fim do amor ou o arrefecimento da paixão tem, entre outras causas, o que ele denomina erosão do Outro, que por ora ocorre em todos os âmbitos da vida e caminha cada vez mais de mãos dadas com a narcisificação do si-mesmo, num processo dramático, mas que, fatalmente avança, de modo sorrateiro e pouco perceptível.

O ensaio de Byung-Chul Han foi lançado em 2012. Se naquele momento da história ele entendia que o eros ainda agoniava e a erosão do Outro e a narcisificação do si-mesmo avançavam sorrateiras e pouco perceptíveis, da minha parte considero que nesses últimos dez anos a alteridade foi vítima de uma série de atentados, em nome do que o próprio pensador chama de inferno do igual. A singularidade, a subjetividade, o “diferente de mim”, parece, é hoje um triste moribundo. No leito ao lado, moribunda também o eros.

Mas quem atenta contra a dupla? – você pode voltar a me questionar. Para mim, a culpa é do tal sujeito narcísico. Aquele que, conforme define o pensador sul-coreano, não consegue estabelecer claramente seus limites, e que, por isso, desaparecem os limites entre ele e o outro. Para esse sujeito, O mundo se lhe afigura como sombreamentos projetados de si mesmo. Ele não consegue perceber o outro em sua alteridade e reconhecer essa alteridade. Ele só encontra significação ali, onde consegue reconhecer de algum modo a si mesmo.

Não sei quanto a vocês, senhoras e senhores, mas esta figura me lembra um certo presidente russo. Mas me lembra, também, aquela moça que faz preenchimento labial para ficar parecida com a atriz que tanto admira e acha bela; o rapaz que faz harmonização facial porque o procedimento está em alta; o(a) profissional liberal bem-sucedido(a) que tem carro alemão para causar boa impressão em seus pares (que também têm carro alemão, claro!), clientes e prospects; a escola que “obriga” todas as crianças da mesma idade a aprenderem tudo do mesmo jeito e no mesmo tempo; a construtora que só ergue arranha-céus com varanda gourmet do tamanho de pequenos apartamentos; a praia paradisíaca – e instagramável, por óbvio! – para onde sempre viajam as celebridades; o restaurante da moda cujo(a) chef também é uma celebridade – e que tem fila de espera de três horas num dia útil qualquer; a dancinha do TikTok cuja música é a mesma e o passinho ou o rebolado também, mudando apenas quem se sujeita a fazê-la (e postá-la); o post de dicas infalíveis no Instagram – de qualquer área ou segmento, para salvar e marcar seus amigos; e por aí vai. 

Sim, queridas e queridos. Chegamos onde chegamos por culpa (também, ou principalmente, como queira) da homogeneização (o inferno do igual) e do narcisismo, da ânsia por fazer valer a nossa perspectiva em detrimento da perspectiva do outro e do desejo imensurável, às vezes implícito, às vezes explícito, de que todos sejam, ajam e pensem como nós, independentemente de quem somos, como agimos e pensamos, quem sabe em nome de uma identidade comum, do bem geral da nação ou da felicidade coletiva. Em suma, chegamos onde chegamos por acalentarmos o maligno desejo de que não houvesse o outro enquanto outro, mas somente o outro enquanto eu. Sem dúvida, é de fazer inveja a Narciso.

O que algumas pessoas ainda não compreenderam – ou são tão narcisistas que não enxergam –, contudo, é que não há eu sem tu.

Um outro filósofo, Martin Buber, ao se debruçar sobre o tema da alteridade no livro “Eu e Tu”, há exatos 99 anos, já dizia que Somente aquele que se volta para o outro homem enquanto tal e a ele se associa, recebe neste outro o mundo. Somente o ser cuja alteridade, acolhida pelo meu ser, vive face a mim com toda a densidade da existência, é que me traz a irradiação da eternidade. Somente quando duas pessoas dizem, uma-à-outra, com a totalidade dos seus seres: ‘és tu!’, é que se instala entre elas o Entre.

Sintetizo a ideia de Buber da seguinte forma: a eventual morte da alteridade não é um assassinato; é um suicídio. Não há mundo (e vida, portanto) sem a alteridade do outro. Sem o outro, torno-me ainda mais narcísico. Minha concha vira meu mundo. E que caia a bomba atômica. 

É tão fácil deslizar para a banalidade. Para a banalidade do horror, escreveu a Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch, ucraniana (vejam vocês!), no tocante “Vozes de Chernobyl" (não, citá-la aqui, neste ponto, não é mera coincidência). Pois é, estimada colega. Deslizar para a banalidade é muito mais fácil do que a gente imagina.

Tenho de admitir que Byung-Chul Han, em alguma medida, conforta-me quando também escreve que o sujeito narcísico – para mim, reitero, um dos responsáveis por esse trágico momento de mundo pelo qual passamos – vagueia aleatoriamente nas sombras de si mesmo até que se afoga em si mesmo. Porém, quando volto a pensar na tragédia da guerra e na moribundização da alteridade e do eros, o próprio filósofo alarma-me sobremaneira ao afirmar que No inferno do igual, a chegada do outro atópico [assimétrico a mim] pode tomar uma forma apocalíptica. Aliás, hoje, só um apocalipse nos poderá libertar – sim, redimir – de um inferno do igual em direção ao outro.

Dez anos atrás, quando publicou “Agonia do Eros”, Chul Han talvez não acreditasse na possibilidade de uma Terceira Guerra; não sei. Por isso, prefiro não encarar o tal do apocalipse como uma profecia. Agora, se Vladimir e suas idiossincrasias são este apocalipse, e a guerra é a libertação do inferno do igual – globalizado, ocidental, capitalistamente yankee e ao menos em tese democrático – em direção a uma possível nova ordem mundial, liderada por esta Rússia que aí vemos, sinceramente, prezada leitora, prezado leitor, penso que a nós só restará torcer para que alteridade e eros desmoribundem-se, seja com suas forças intrínsecas, seja com a ajuda de quem ainda não se narcisificou por completo, e nos resgatem da armadilha para a qual fomos sorrateiramente atraídos pelas profundezas do nosso próprio ego.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

 

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