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Opinião

Ricardo Mituti: A fé dantesca em Lygia Fagundes Telles

Por: SIDNEY NICÉAS
Em tempos sombrios, Ricardo Mituti faz um paralelo auspicioso entre Dante Alighieri e Lygia Fagundes Telles e questiona a fé.

Foto: Corey Collins/unsplash/Arte Tesão Literário

19/04/2022
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*Por Ricardo Mituti

Já escrevi, neste Tesão Literário, que não gostei de “A Divina Comédia”. Mas para ser fiel contigo, que se dá ao trabalho de ler-me, e comigo mesmo, devo admitir que uma passagem, em especial, sensibilizou-me deveras: quando, no canto XXIV do Paraíso, Dante Alighieri dialoga com São Pedro acerca da fé.

Ao ser indagado pelo santo sobre o que era a fé, Dante evoca São Paulo e diz que a fé é a substância das coisas esperadas e o argumento das coisas não aparentes. Pedro, então, responde-lhe: “Estás certo se, como ele [São Paulo], sentes/a Fé, e primeiro as suas razões procuras/fundamentais, e após as evidentes”.

O poeta florentino desenvolve o raciocínio nas estrofes subsequentes: “As coisas profundas e puras,/que permitem-me aqui [no Paraíso] ter sua visão,/aos nossos olhos lá [na Terra] são tão obscuras,//que só existem por nossa convicção/na qual se funda a esperança que temos,/e de substância toma o nome então;//e é só sobre essa crença que podemos/argumentar, sem termos outra vista,/donde o nome argumento que lhe demos”.

Encantei-me com a singeleza de toda essa elaboração. Mas o que mais despertou minha atenção, mesmo, foi a ideia de sentir a fé, mencionada por São Pedro. Sim, porque homem de pouca fé que sou – ainda que assumidamente sensível –, sobretudo para questões religiosas e espirituais, há tempos vinha procurando ter ou encontrar a fé, antes de senti-la. 

Creio sempre ter compreendido a fé como uma possibilidade a ser conquistada, quase como um bem material que almejava possuir, muito mais do que algo infundido como virtude por uma graça santificante, tal qual define a Igreja Católica, denominando-a como uma das três chamadas virtudes teologais, juntamente com a esperança e a caridade.

Pois é. Esse papo entre Dante e São Pedro acendeu um sinal amarelo no meu âmago. E meu intelecto, que ainda me assemelha muito mais a Tomé do que a Paulo (convertido) ou Pedro, entrou em polvorosa, como você deve imaginar.

No meio dessa arrastada crise existencial (mais uma para se achegar às tantas que já me assolam), deparei-me com a notícia da morte de Lygia Fagundes Telles. E por mais paradoxal que o momento soasse, a literatura da grande dama chegou em meu socorro.

Ao saber da morte da escritora, recordei-me imediatamente do conto Natal na Barca, presente no livro “Antes do Baile Verde” – de sua autoria –, e da mulher de Lucena, interlocutora da narradora.

Natal na Barca foi a narrativa que mais me fez chorar ao longo de toda minha existência de leitor. E chorei não apenas pela tristeza que senti em algumas passagens, mas também pela forte comoção que a fé em Deus da mulher de Lucena causou em mim.

Esta mulher havia perdido um filho de quatro anos, fora abandonada pelo marido e carregava um bebê doente nos braços em plena noite de Natal, ambos passageiros de uma barca humilde, rumo ao médico que poderia salvar a vida da criança. Ainda assim, mostrava-se firme em suas convicções, muito mais do que resignada com as tragédias que lhe acometeram em sucessão:

– A senhora é conformada., dirigiu-se a ela a narradora, não sem alguma espécie de compaixão indignada com todos os acontecimentos relatados pela interlocutora.

– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

– Deus – repeti vagamente.

– A senhora não acredita em Deus?

– Acredito – murmurei.

E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela confiança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas...

Um outro Dante, o Gallian, meu Mestre e amigo, criador do Laboratório de Leitura, diz que ter fé e esperança é próprio do humano. Eu, ao voltar a Natal na Barca, convenço-me que se sobra humanidade a essa personagem sobre-humana concebida por Lygia, a mim, quase um verme, portanto, não caberá outro lugar no futuro (se houver, claro!) que não seja o Inferno ou o Purgatório de Alighieri. Porque por muito menos do que experimentou a mulher de Lucena, não foram poucas as vezes em que duvidei da existência de Deus, desisti de ter ou encontrar a fé ou declarei-me ateu ou agnóstico. Aliás, vira e mexe eu ainda me pego atormentado por todas essas questões, possibilidades e mistérios da transcendentalidade.

Para minha sorte – e para que eu não me considere tão verme assim –, Lygia também parecia ter uma relação ambígua, digamos, com o mistério da fé – como, afinal, proclama-se na liturgia da Igreja Católica.

Em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”, publicada há 22 anos (leia aqui), a escritora declarou que gostava muito de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” – do ateu José Saramago, registre-se. Disse, ainda, que também gostava dos agnósticos: eles são apaixonados por Deus. É uma negação da paixão. Negam e se dedicam a isso, se entregam. É a forma de paixão mais revolucionária que existe.

Lygia não disse ser religiosa, mas declarou-se espiritualista – às vezes crente na reencarnação, outras vezes no que denominou transmigração das almas. Por outro lado, falou que acreditava na reza e que tinha paixão por alguns santos; citou Santa Terezinha para questionar se, de fato, a vida terminaria ou não no instante da morte; e admitiu que não ia à igreja, mas que achava a Páscoa a festa mais linda que existe, a festa da ressurreição. Isso é uma coisa que me anima, me fortalece. Senão a vida fica insuportável.

Diante desse mix de crenças, dúvidas e possibilidades acerca da transcendência, a entrevistadora perguntou a ela o que achava que seria em outra vida, já que a ideia da ressurreição a ajudava a viver e já que cria na transmigração das almas. Lygia não poderia ter se saído melhor: Não vou dizer, de repente um anjo ouve isso, e eu evoluí, já quero ser outra coisa. É preciso obedecer o mistério.

Ora, se até a grande dama da literatura brasileira – que deu à luz a mulher de Lucena, dantesca em sua fé paulina, e com maestria tratou do papel dessa fé na formação humana – podia experimentar a fé na transcendentalidade por essa ampla gama de perspectivas e questionamentos, por que comigo – que até me deparar com o diálogo entre Dante Alighieri e São Pedro ainda buscava chegar à fé como se chega a algum destino geográfico, físico – teria de ser diferente? 

Não sei. Talvez porque tenha achado, prepotente que sou, que já estava suficientemente humanizado para ser ungido. Ou, quem sabe, porque ainda não tinha tido a humildade de reconhecer que, por mais que me esforce para ser menos pragmático, no fundo ainda sou um impostor enquanto humanista, cartesiano e imanente demais para sentir (sim, sentir!) que não existo só porque penso, mas justamente porque sinto – ainda que, para meu desespero, siga sem conseguir sentir sequer a brisa da fé da mulher de Lucena, legada pela genialidade plural e humana da literatura de Lygia Fagundes Telles a incrédulos feito eu.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

 

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