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Opinião

Ricardo Mituti: ler poesia educa os afetos

Por: SIDNEY NICÉAS
A nova crônica Ricardo Mituti afirma que Ler poesia educa os afetos – e deleita mais que terapia

Foto: Jr. Korpa/Unsplash

07/09/2021
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*Por Ricardo Mituti

Ler poesia educa os afetos – e deleita mais que terapia

O genial Miguel de Cervantes, celebrizado pelo clássico “D. Quixote”, escreveu uma série de novelas no início do século XVII conhecidas por Novelas Exemplares. Uma delas, intitulada “A Ciganinha”, apresenta-nos uma protagonista que, a despeito da pouca idade, demonstra maturidade e clareza de ideias incomuns na juventude – sobretudo a da vida real, fora dos livros.

Entre outras importantes lições que aprendi com esta figura ímpar da literatura – e com alguns de seus interlocutores –, uma, em especial, toca-me profundamente. E não apenas por seu próprio teor, mas pelo lirismo com que nos é ofertada. Diz respeito à poesia.

Preciosa, como é apelidada a ciganinha, em dado momento da novela reencontra nas ruas de Madri um poeta de coplas, conhecido seu. Copla é um tipo de poesia popular, típica da Espanha, geralmente cantada com acompanhamento de música improvisada.

Dias antes deste reencontro, o poeta havia entregado à Preciosa algumas coplas de sua autoria. Quando a reviu, perguntou se ela as havia lido. Eis que se desenrola o seguinte diálogo entre as personagens:

– Antes que eu te responda qualquer coisa, terás que me dizer uma verdade pela vida do que mais quer.

– Conjuro é este – respondeu o criado – que, ainda que dizê-la me custasse a vida, não a negaria de nenhuma maneira.

– Pois a verdade que quero que me diga – disse Preciosa – é a de que se por acaso és poeta.

– Ao sê-lo – replicou o criado – forçosamente seria por sorte. Mas deves saber, Preciosa, que o nome de poeta muitos poucos o merecem e, assim, eu não sou senão um apaixonado pela poesia. Para que conste, não vou pedir nem procurar versos alheios: os que te dei são meus e os que te dou agora também, mas não por isto sou poeta, nem o queira Deus.

– Tão ruim é ser poeta? – replicou Preciosa.

– Não é ruim – disse o criado – mas ser somente poeta não acho uma coisa boa. É preciso usar a poesia como uma joia valiosíssima, cujo dono não a usa todo o dia, nem a mostra a todos, nem a cada passo, senão quando convenha e seja importante que a mostre. A poesia é uma belíssima donzela, casta, honesta, discreta que se contém nos limites da discrição mais elevada. É amiga da solidão, as fontes a entretêm, os prados a consolam, as árvores a acalmam, as flores a alegram e, finalmente, deleita e ensina a todos que com ela se encontram.

– Apesar de tudo isto – respondeu Preciosa – escutei dizer que é muito pobre e que tem um pouco de mendigo.

– Ao contrário – disse o criado – porque não há poeta que não seja rico, pois todos vivem contentes com a sua situação: filosofia que alcançam poucos. (...)

Com esta passagem, Cervantes apresenta-nos a poesia com poesia, de maneira afetiva e até pura, sem afetação. Aproxima-nos, com suas personagens, de características que costumamos atribuir mais à prosa. Entre elas, a de, em alguma medida, ser um meio de transmissão de conhecimento do outro – e de si mesmo, por consequência –, de experiência prévia, ainda que ficcional, de uma vida vivida apenas na cabeça de quem a criou, mas que, em algum momento, também pode se desnudar à nossa frente, na nossa sempre conturbada e imprevisível existência.

Não faz muito li “A Educação Sentimental”, do filósofo espanhol Julián Marías. O conterrâneo de Cervantes apropria-se do título de um romance de Gustave Flaubert para desenvolver a ideia da educação dos afetos e dos sentimentos. Para isso, apresenta-nos a literatura e as artes como caminhos possíveis para tal educação.

Embora foque predominantemente a produção em prosa, Marías dedica especial atenção à poesia enquanto a tal expressão artística que deleita e ensina a todos que com ela se encontram, como diz o poeta das coplas, mas que também – e, talvez, sobretudo – é capaz de educar-nos enquanto seres que sentem.

Diz-nos o filósofo que A forma elementar e básica da literatura em relação aos sentimentos, em particular o amoroso – ou, com mais rigor, os sentimentos que acompanham o amor –, é a poesia lírica, que condiciona, antes da representação da vida humana, sua tonalidade. (...) A poesia dá à vida uma coloração emocional.

Ora, em tempos tão cinzas e sombrios, quem aqui seria maluco de abrir mão de uma coloração emocional na vida? Eu, que sou metido a escrever versos, admito não ter a grandiosidade de espírito do poeta das coplas para negar o título que a vaidade teima em me impor (pior seria, penso eu, usar deste espaço para declamar hipocrisia). Entretanto, amparo-me justamente nesse paradoxo existencial para permitir-me, cada vez mais, deleitar-me e ser educado pela sensibilidade de quem consegue transpor para versos – e, com eles, jogar luz nos meus afetos – as mais sutis e recônditas melodias da alma humana, nem sempre tão belas quanto gostaríamos que fossem ou imaginamos que sejam.

Em entrevista ao jornalista e escritor angolano José Eduardo Agualusa, num trecho reproduzido pelo próprio autor africano na apresentação do livro “Memórias Inventadas”, o poeta Manoel de Barros disse, com a simplicidade que lhe era marca registrada, que O verso é um socorro para aqueles que não dominam tão bem o idioma. Abusado que sou – e ainda muito mal-educado, como pode notar –, permito-me ir além: o verso, para mim, é um socorro para aqueles que não dominam tão bem a própria existência – ou seja, eu, você e as quase 8 bilhões de pessoas que ocupam cada pedaço desse chão que pisamos.

Da minha parte, pelo menos, celebro a existência da poesia (e a consumo com voracidade, claro!), ainda que muitos, lamentavelmente, reneguem-na. E sou grato a Manoéis, Carlos, Marios, Fernandos, Vinícius, Cecílias, Coras, Adélias, Hildas e a tantos(as) outros(as), mundo afora, que se dispuseram a trabalhar, mesmo sem que talvez soubessem, como educadores de almas, afetos e sentimentos.

Não sei quanto a você, mas eu, sem esses gênios sensíveis, não seria apenas um homem ainda mal-educado; talvez fosse, na verdade, o mais chucro dos bípedes.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

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