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Opinião

Ricardo Mituti: quem me dera ser um peixe-boi...

Por: SIDNEY NICÉAS
Mais vale um peixe-boi no oceano da literatura do que uma metáfora sexual em clássico da MPB

Foto: Frank Wolsing/Unsplash

16/07/2021
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*Por Ricardo Mituti

Dizem que Evidências é a música mais cantada em karaokês Brasil afora. Pode ser. Mas eu, sempre que tinha a chance de passar vergonha com um microfone na mão, quando jovem (porque hoje não mais me sujeito ao ridículo premeditado), gostava mesmo era de me aventurar pelas Borbulhas de Amor, clássico imortalizado por Raimundo Fagner.

Ocorre que passei parte da minha juventude sem entender o porquê, afinal, Fagner – ou quem quer que ele tenha concebido como persona da canção – queria ser um peixe. Justamente um peixe.

Ora, é óbvio! – você pode responder, com sarcasmo de terceira categoria: para em teu límpido aquário mergulhar / fazer borbulhas de amor pra te encantar / passar a noite em claro / dentro de ti. E, não contente com a infame piada, ainda rematar, às gargalhadas: Ok! Se não for por isso, então é para enfeitar de corais tua cintura / fazer silhuetas de amor à luz da lua / saciar esta loucura / dentro de ti.

Com a experiência – digamos assim –, achei ter captado a mensagem que se escondia sob as escamas do bicho de Fagner. E, sim, eu estava certo: o peixe era uma metáfora para o órgão sexual masculino. O animal aquático, nesta música, desbancou a supremacia histórica das aves que gentilmente emprestam seus nomes ao falo – entre tantos outros apelidos existentes para denominar o dito-cujo.

A confirmação daquilo que até então eu tinha apenas como teoria se deu com duas outras revelações – ao menos para mim. A primeira, de que o clássico da nossa MPB – na opinião de um ex-cantor de karaokê – era uma versão da música Borbujas de Amor, do dominicano Juan Luis Guerra (que também queria ser um pez, registre-se!). E, a segunda, de que tal versão havia sido escrita por ninguém menos que Ferreira Gullar. Foi o próprio poeta maranhense em pessoa, inclusive, que admitiu, em entrevista concedida durante um evento literário, que o peixe cantado por Fagner era, na verdade, um pinto (ou peru, como queira).

Confesso que essas descobertas tranquilizaram-me um pouco a alma, que teima em ser excessivamente pragmática e ortodoxa e relativamente cega para as entrelinhas e algumas metáforas. 

Para minha sorte, nesse sentido, sou um apaixonado pelas artes. Porque se por um lado o pragmatismo por anos impediu-me de ver um pinto no peixe, por outro a literatura revelou-me o quão genial e reflexivo pode ser um animal aquático nos livros.

A dinamarquesa Karen Blixen escreveu um conto-quase-fábula intitulado “O Mergulhador”. Nele, concebeu um velho peixe-boi com óculos de aro de chifre, dono de proeminente posição no mar, que dá palestras sobre os costumes humanos para um público de peixes – e, não tenho dúvida, a considerar o que reproduzirei nas linhas subsequentes, o bicho coloca muito pseudocoach no chinelo.

Embora pareça demonstrar alguma arrogância ao proclamar que dentre todas as criaturas, o peixe é a que foi feita de forma mais cuidadosa e precisa à imagem do Senhor, o peixe-boi mostra-se mais sábio que muito bípede que roda de Mercedes e tem escritório na Avenida Paulista. E ainda esfrega isso – com a devida licença poética – na fuça do homem.

Diz o animal filósofo que eles, seres do mar, Carregamos conosco, nadando por aí, um relato de eventos magnificamente apropriado para nos demonstrar nossa posição privilegiada e para manter nosso sentimento de irmanação. Isso é sabido do homem, também, e até mesmo ocupa um importante lugar em sua história, mas, em conformidade com sua concepção infantil das coisas em geral, ele não tem senão uma compreensão confusa do fato.

Profundo – com o perdão do trocadilho –, ele prossegue: Não temos mãos, de modo que não podemos construir coisa alguma e jamais somos tentados pela vã ambição de alterar o que quer que seja no universo do Senhor. Não semeamos e tampouco labutamos; logo, nenhuma estimativa nossa se prova errada e nenhuma expectativa nossa é frustrada.

Eu, que sou bípede mas não tenho Mercedes ou escritório na Paulista, se ouvisse isso de um peixe-boi emergiria de vergonha – ou por outra, desejaria ardentemente que me nascessem nadadeiras, escamas e brânquias em lugar das mãos e braços.

À maneira sábia e irrefutável dos peixes (frase do peixe-boi!), continua o filósofo marinho, o homem, embora caído e corrupto, mais uma vez logrou, pelo engenho, ascender ao topo. Continua aberta à dúvida, contudo, se mediante esse aparente triunfo o homem obteve verdadeiro bem-estar. Como uma autêntica segurança poderá ser obtida por uma criatura sempre ansiosa acerca da direção em que se move e que atribui importância vital ao ato de se erguer e cair?, questiona, provocativo. E, no decorrer das reflexões, ele procura responder a própria pergunta, traçando um paralelo entre a realidade dos animais aquáticos e a nossa, bípede: Nossa mudança de lugar na existência nunca cria, ou deixa atrás de si, o que o homem chama de um caminho, fenômeno – na realidade não um fenômeno, mas uma ilusão – sobre o qual despenderá inexplicável deliberação apaixonada. O homem, no fim, alarma-se com a ideia do tempo e desequilibra-se pelo incessante vagar entre o passado e o futuro.

Com o devido respeito que devo à memória do imenso Ferreira Gullar e ao talento de Raimundo Fagner, é com o peixe-boi de Karen Blixen que eu queria passar a noite em claro, refletindo, de modo a tentar saciar esta loucura que carrego dentro de mim.

Mas ora – ressurgiria você, versado em biologia marinha, nos estertores da minha crônica –, o peixe-boi de Karen Blixen não é um peixe, como o de Gullar; é um mamífero. E eu, debatendo-me com minha concepção pragmática, ortodoxa e por que não dizer infantil das coisas em geral, a você surpreenderia com a seguinte resposta quase peixeboniana: pois bem, se o peixe do poeta pode ser uma ave, por que raios o meu não pode ser um mamífero? Vá ler literatura, pô!

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

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